
Cerca de dois
mil produtores participaram do ato nesta quarta-feira (28), cobrando
preço justo, valorização do fruto e mais rigor nas regras de importação
Ilhéus (BA) –
Cerca de dois mil cacauicultores realizaram, nesta quarta-feira (28),
uma manifestação em frente ao Porto Internacional de Ilhéus para
protestar contra os deságios praticados pela indústria moageira e o
aumento das importações de cacau africano, que, segundo os produtores,
têm derrubado os preços pagos ao fruto e colocado em risco a
sustentabilidade da cadeia produtiva regional.
O ato foi
liderado pela Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC) e
reuniu representantes de associações, cooperativas e lideranças do sul e
baixo-sul da Bahia. Com cartazes e palavras de ordem pedindo “preço
justo para o cacau e dignidade para quem produz”, os manifestantes
também criticaram a Instrução Normativa nº 125/2021, do Ministério da
Agricultura, que flexibilizou exigências fitossanitárias para a
importação de amêndoas.
Na avaliação
dos cacauicultores, a retirada da obrigatoriedade do tratamento com
brometo de metila em países exportadores que abastecem o Brasil, como a
Costa do Marfim, aumenta o risco de entrada de pragas exóticas, a
exemplo da Phytophthora megakarya, responsável pela doença da vagem preta, considerada uma grave ameaça às lavouras nacionais.
Presente no protesto, o ex-prefeito de Gandu, Leo de Neco, destacou ao Mercado do Cacau
a importância de fortalecer a produção local. Segundo ele, valorizar o
cacau baiano é garantir renda no campo, movimentar a economia das
cidades e preservar uma cultura que sustenta milhares de famílias. “O
produtor precisa ser respeitado. Quando o cacau é desvalorizado, toda a
região sente. É uma luta que vai além da porteira da fazenda”, afirmou.
O presidente
da Câmara Setorial do Cacau da Bahia, Fausto Pinheiro, alertou para o
cenário de desânimo no campo diante da forte queda nos preços. De acordo
com ele, muitos produtores já enfrentam dificuldades para manter os
tratos culturais e honrar compromissos financeiros, o que pode levar ao
abandono das lavouras. “Estamos vivendo um momento crítico. Sem
remuneração justa, não há como investir, produzir com qualidade ou
manter o homem no campo”, reforçou.
Já o
secretário municipal de Agricultura e Pesca de Ilhéus, Milton Andrade,
lembrou que a mobilização desta quarta-feira remete a um ato semelhante
ocorrido há cerca de 13 anos, também motivado pela luta por melhores
preços. Para ele, o movimento mostra que o problema persiste e exige
soluções estruturais. Andrade também criticou a postura das
multinacionais, que, segundo os produtores, vêm praticando valores
abaixo da cotação da Bolsa de Nova York, referência internacional do
mercado.
Atualmente, a
tonelada do cacau gira em torno de US$ 4.100 no mercado externo, o que,
na avaliação do setor produtivo, deveria resultar em um preço mínimo de
cerca de R$ 320 por arroba no Brasil. No entanto, no sul da Bahia,
muitos agricultores relatam receber em média R$ 200, patamar considerado
inviável, especialmente para a agricultura familiar, que representa a
maioria dos produtores e tem papel fundamental na movimentação do
comércio local, desde serviços e construção até consumo em geral.
Segundo o produtor de Gandu, Moura Silva,
a luta não é apenas dos cacauicultores. “É também dos prefeitos,
comerciantes e prestadores de serviço. Quando o cacau vai mal, toda a
economia regional sofre”, pontuou. As lideranças defendem
maior isonomia nas regras de importação, revisão dos critérios de
classificação das amêndoas estrangeiras e mais transparência na formação
de preços.
Os produtores
também denunciam que a formação de estoques acima da necessidade do
mercado interno, somada à entrada de grandes volumes de cacau africano,
tem ampliado a oferta e pressionado ainda mais as cotações domésticas.
Em pouco mais de um ano, os preços internos teriam recuado de cerca de
R$ 1.000 para algo em torno de R$ 250 por arroba, um choque que ameaça
investimentos, empregos e a própria permanência do produtor na
atividade.
Do lado das
indústrias, o argumento é de retração da demanda por derivados de cacau e
necessidade de garantir o abastecimento das fábricas por meio de
contratos firmados com antecedência. Ainda assim, o impasse evidencia o
aumento das tensões entre os elos da cadeia produtiva, em um cenário
marcado por forte volatilidade internacional e desafios crescentes para
equilibrar produção, estoques e consumo.
Ao final do
ato, as lideranças reforçaram que novas mobilizações podem ocorrer caso
não haja avanços no diálogo com o governo federal e com a indústria, e
defenderam políticas que priorizem o cacau brasileiro, assegurem
sanidade vegetal e garantam remuneração justa a quem mantém viva uma das
principais vocações econômicas do sul da Bahia.
Fonte: Mercado do Cacau