JORGE AMADO: 114 ANOS DE UMA VOZ NASCIDA NO SUL DA
BAHIA PARA O MUNDO
Agosto guarda Jorge Amado entre duas datas e uma permanência. No dia
6, completaram-se vinte e cinco anos de sua partida; no dia 10, celebram-se
cento e quatorze anos de seu nascimento. Entre uma data e outra, porém, a
literatura parece desmentir o tempo: Jorge
Amado permanece.
Permanece porque certos escritores, depois de atravessarem a vida, passam
a habitar um território onde os calendários já não conseguem alcançá-los
inteiramente. Seus anos podem ser contados; sua ausência pode ser datada; mas a
presença que deixaram escapa à matemática do tempo.
Com Jorge Amado é assim.
Vinte e cinco anos depois de sua partida, ainda é possível encontrá-lo
por estas terras. Não como quem procura uma lembrança distante, mas como quem
reconhece uma presença disseminada pela paisagem e pela memória. Ele está no
cheiro do cacau, na lembrança das antigas fazendas, nas estradas abertas entre
matas e roças, nas cidades erguidas sob o esplendor e as contradições da
civilização cacaueira. Está também no mar da Bahia, nas ladeiras de Salvador,
nas feiras, nos mercados, nos terreiros, nas cozinhas e nas ruas onde a vida
popular pulsa com uma intensidade que sua literatura soube transformar em
palavra.
Jorge Amado nasceu em 10 de
agosto de 1912, no Sul da Bahia. Antes de pertencer ao Brasil e
antes de conquistar leitores em tantas partes do mundo, pertenceu profundamente
a este chão. E pertencer, nesse caso, significa muito mais do que registrar um
lugar de nascimento em sua biografia. Significa reconhecer uma geografia
afetiva, histórica e humana que participou decisivamente da formação de seu
olhar e que, mais tarde, seria transfigurada pela literatura.
Foi aqui que seus olhos
começaram a aprender a humanidade.
O Sul da Bahia que se apresentou ao menino Jorge Amado não era apenas uma
paisagem de extraordinária exuberância natural. Era uma sociedade em formação,
atravessada pela expansão da lavoura cacaueira, pela riqueza que dela emergia,
pelas disputas em torno da terra, pela força dos grandes proprietários e pelo
trabalho de uma multidão de homens e mulheres sobre cujos braços se edificava a
prosperidade regional.
Era um território de contrastes: abundância e privação, poder e
vulnerabilidade, violência e esperança, mando e resistência conviviam muito
próximos uns dos outros.
Foi nesse universo que Jorge Amado começou a perceber que uma terra não é
feita somente de rios, matas, estradas, cidades e plantações. Uma terra é feita, sobretudo, das vidas que nela se
entrelaçam.
Essa compreensão ajuda a explicar a extraordinária força humana que mais
tarde atravessaria sua obra. O cacau, em Jorge Amado, nunca seria apenas fruto;
a fazenda nunca seria somente propriedade; a cidade nunca seria mero cenário.
Por trás de cada elemento da paisagem existiriam relações de poder, trabalho,
desejo, sofrimento, ambição, solidariedade e esperança.
A geografia se tornaria humana porque o escritor aprendera, desde cedo, a
enxergar as pessoas que existiam dentro dela.
Nesse sentido, o pensamento do geógrafo brasileiro Milton Santos oferece uma chave
particularmente fecunda para compreendermos essa relação entre Jorge Amado e o
território que o formou. Ao conceber o espaço como realidade inseparável da
sociedade e da história, Milton Santos nos ajuda a perceber que o território
não se reduz à paisagem física: ele é também experiência humana acumulada,
espaço transformado pelo trabalho, pelas relações sociais, pelos conflitos,
pelas permanências e pelas mudanças.
É precisamente esse território humano que Jorge Amado levaria para a
literatura.
Quando escreveu sobre o Sul da Bahia, não transportou simplesmente uma
paisagem para dentro do romance. Transportou uma experiência histórica.
Em Cacau (1933), aproximou-se do universo dos trabalhadores das
fazendas cacaueiras, revelando as condições de vida e as desigualdades que
conviviam com a riqueza produzida pelos chamados frutos de ouro. Em Terras
do Sem-Fim (1943) e São Jorge dos Ilhéus (1944), a região
cacaueira aparece atravessada pelas forças que marcaram sua formação histórica:
o trabalho, a riqueza, as disputas pela terra, as relações de poder, os sonhos
de ascensão, as violências e as resistências.
O Sul da Bahia deixou, então, de ser apenas um ponto no mapa para
adquirir dimensão literária.
Jorge Amado não apenas nasceu no
Sul da Bahia. O Sul da Bahia também nasceu literariamente dentro de Jorge
Amado.
Nasceu como memória, conflito, paisagem, personagem e linguagem. E,
quando o escritor começou a oferecer seus livros ao mundo, levou consigo esse
território que primeiro lhe ensinara a observar os homens.
Mas existe ainda outra dimensão fundamental: Jorge Amado aprendeu muito cedo a olhar para aqueles
que a História oficial nem sempre enxergava.
E esse olhar atravessaria profundamente sua obra, fazendo da literatura
um espaço de visibilidade para personagens e grupos humanos que, durante muito
tempo, permaneceram à margem das narrativas dominantes.
Em Suor (1934), voltou-se para os moradores pobres de um cortiço
de Salvador, reunindo naquele espaço vidas marcadas pela precariedade e pela
luta cotidiana pela sobrevivência. Em Jubiabá (1935), colocou no
centro da narrativa Antônio Balduíno, personagem negro cuja trajetória permite
ao escritor percorrer questões relacionadas à pobreza, ao trabalho, à
identidade, à cultura afro-baiana e à exclusão social.
Em Capitães da Areia (1937), foram os meninos abandonados que
ganharam rosto, nome, história e humanidade. Em vez de reduzi-los à condição de
problema social ou de delinquentes, Jorge Amado procurou revelar as crianças
existentes por trás do estigma: seus medos, afetos, lealdades, sonhos,
violências sofridas e desejos de pertencimento. Ao fazê-lo, deslocou o olhar do
julgamento para a compreensão humana.
Mais tarde, em Gabriela, Cravo e Canela (1958), as
transformações dos costumes e as tensões entre tradição e modernização
ganhariam extraordinária força literária. Gabriela não é apenas personagem de
uma história de amor: sua liberdade confronta convenções e expectativas sociais
impostas à mulher.
Em Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966) e Tieta do Agreste
(1977), Jorge Amado voltaria a construir personagens femininas de enorme
presença, por meio das quais também interrogaria convenções, moralidades e
formas de controle social.
A cultura negra e as tradições afro-baianas alcançariam especial
densidade em Tenda dos Milagres (1969), na figura de Pedro Archanjo e
no universo cultural que o cerca. Ali emergem questões relacionadas ao racismo,
ao preconceito, à mestiçagem, à intolerância e à desvalorização histórica dos
saberes populares e das matrizes africanas na formação da sociedade brasileira.
Assim, trabalhadores, crianças abandonadas, negros, pobres, mulheres,
habitantes dos cortiços, homens e mulheres das ruas, dos mercados, das roças e
dos terreiros deixaram de constituir apenas a margem da paisagem social para
ocupar o centro da criação literária.
É importante compreender a grandeza desse gesto.
Jorge Amado não lhes concedeu humanidade- reconheceu literariamente a humanidade que sempre lhes pertenceu.
Deu-lhes presença narrativa, complexidade, desejos, contradições, afetos e
história.
Talvez esteja justamente aí uma das marcas mais profundas de sua obra: onde a História oficial muitas vezes enxergou a
multidão, Jorge Amado procurou enxergar pessoas.
O menino do Sul da Bahia aprendera que, por trás dos grandes
acontecimentos, existem vidas anônimas; que, por trás da riqueza, existe
trabalho; que, por trás das transformações de uma cidade, existem conflitos; e
que, por trás da História escrita com letras maiúsculas, existem milhares de
pequenas histórias sem as quais nenhuma sociedade pode verdadeiramente ser
compreendida.
Seu universo, entretanto, continuaria a se alargar.
Vieram o mar e as ladeiras. Vieram os saveiros, as feiras, os mercados e
os terreiros. Vieram as festas, os sabores, os cheiros e os mistérios da Bahia.
Vieram Gabriela, Dona Flor, Tieta, Pedro Archanjo, Quincas Berro d’Água, os
meninos de Capitães da Areia e uma multidão de personagens que parecem
ter adquirido o extraordinário privilégio de sobreviver ao próprio autor.
Jorge Amado sabia criar gente.
Não apenas personagens.
Gente.
Homens e mulheres contraditórios, imperfeitos, apaixonados, sofridos,
irreverentes, generosos, transgressores. Seres atravessados pelo desejo, pela
fome, pelo preconceito, pela fé, pelo amor, pela esperança e pela necessidade
humana de encontrar um lugar no mundo.
Talvez por isso continuemos a reconhecê-los.
A Bahia que emerge de seus livros não é silenciosa nem imóvel. Não é
apenas paisagem oferecida à contemplação.
É uma Bahia que fala.
Fala através de seus homens e de suas mulheres. Fala através da fé e da
festa, do sofrimento e da resistência, da sensualidade e da ternura, da
injustiça e da esperança. Uma Bahia mestiça, plural, contraditória e
profundamente humana.
Essa Bahia atravessou oceanos.
Os livros de Jorge Amado chegaram a numerosos países e idiomas,
encontrando leitores pertencentes a culturas muito diferentes daquela em que
suas histórias nasceram. Personagens saídos das terras do cacau e das ruas da
Bahia passaram a falar outras línguas sem perder inteiramente o sotaque de sua
origem.
Existe nisso uma bela lição sobre a literatura.
Para alcançar o universal, Jorge Amado não precisou deixar de ser baiano.
Precisou ser profundamente baiano.
Quanto mais mergulhou em sua terra, mais encontrou o ser humano. Quanto
mais falou de sua gente, mais falou da humanidade. Quanto mais particular era a
paisagem, mais universais se tornavam as paixões que nela habitavam.
O escritor que nasceu no Sul da Bahia chegou ao mundo sem abandonar o
caminho de volta.
E nós, que vivemos nesta região, experimentamos diante de sua obra uma
emoção particular. Quando lemos determinadas páginas de Jorge Amado, não
visitamos apenas um território recriado pela literatura. Reconhecemos
paisagens, memórias, modos de viver e fragmentos de uma história que também nos
constitui.
Por isso, celebrar seus 114 anos
de nascimento, aqui, possui uma dimensão que ultrapassa a
homenagem literária.
É também um exercício de
pertencimento.
Pertencer a uma terra não significa apenas ter nela nascido ou habitá-la.
O pertencimento se constrói pela memória, pelas experiências compartilhadas,
pelos símbolos que uma coletividade reconhece como seus e pelas narrativas por
meio das quais um povo aprende a compreender a própria história.
É nesse ponto que literatura, memória e pertencimento se encontram.
Um povo não pertence verdadeiramente a um lugar apenas porque ocupa
determinado espaço geográfico. Pertence também porque reconhece as histórias
que ali foram vividas, preserva os nomes daqueles que ajudaram a interpretá-las
e transmite às novas gerações os símbolos por meio dos quais essa experiência
coletiva adquire sentido.
Jorge Amado tornou-se um desses símbolos.
Ao transformar o Sul da Bahia em matéria literária, ajudou também a
transformar nossa experiência histórica em patrimônio cultural. Deu
permanência, pela palavra, a um mundo que o tempo inevitavelmente modificaria.
Celebrá-lo, portanto, é mais do que recordar um grande escritor.
É reconhecer, através dele, uma
parte de nós mesmos.
Para a Academia Grapiúna de
Artes e Letras - AGRAL, essa memória possui significado ainda
mais especial. Jorge Amado é Patrono
da Cadeira nº 1, ocupada pelo escritor e jurista Dr. Vercil Rodrigues.
Existe uma simbologia particularmente expressiva nesse lugar que lhe foi
reservado.
A primeira cadeira de uma Academia nascida no coração da região grapiúna
guarda o nome de um escritor que partiu justamente deste chão para alcançar
algumas das mais distantes geografias da literatura.
Uma cadeira acadêmica não guarda somente um nome.
Guarda uma memória, uma herança e uma responsabilidade.
Ao inscrever Jorge Amado entre seus patronos, a AGRAL reconhece uma
linhagem cultural que pertence à própria identidade do Sul da Bahia e reafirma
o compromisso de preservar, estudar e transmitir às novas gerações a memória
daqueles que fizeram desta região território de criação, pensamento e
literatura.
Jorge Amado faleceu em 6 de
agosto de 2001.
A frase é historicamente verdadeira, mas literariamente parece
insuficiente.
Porque morrer, para um escritor, talvez não signifique desaparecer.
Enquanto houver alguém abrindo Gabriela, Cravo e Canela e
reencontrando uma sociedade atravessada por mudanças; enquanto os meninos de Capitães
da Areia continuarem correndo pelas páginas; enquanto Terras do
Sem-Fim devolver ao leitor os dramas da conquista das terras do cacau;
enquanto Pedro Archanjo continuar enfrentando intolerâncias; enquanto Dona
Flor, Tieta e Quincas continuarem provocando leitores, Jorge Amado permanecerá
contrariando a ausência.
Os grandes escritores possuem essa forma particular de eternidade.
Deixam de estar entre nós, mas continuam dizendo.
Continuam perguntando.
Continuam inquietando.
Continuam contando.
Passados vinte e cinco anos de sua morte e chegados os cento e quatorze
anos de seu nascimento, talvez devamos olhar menos para a distância que nos
separa de Jorge Amado e mais para tudo aquilo que ainda nos aproxima dele.
A terra permanece.
As palavras permanecem.
As personagens permanecem.
E permanece, sobretudo, a extraordinária capacidade de sua literatura de
devolver presença e dignidade àqueles que a História tantas vezes relegou às
margens.
Neste 10 de agosto de 2026,
celebrar Jorge Amado é celebrar mais do que a memória de um escritor. É
reconhecer a força de uma obra que transformou o Sul da Bahia em território
literário do mundo e fez de homens e mulheres de nossa terra personagens de uma
narrativa universal.
Cento e quatorze anos depois daquele agosto de 1912, o menino grapiúna
continua viajando.
Seus livros atravessaram mares.
Suas personagens aprenderam outras línguas.
Sua Bahia encontrou morada na imaginação de sucessivas gerações de
leitores.
E, depois de percorrer o mundo, sua palavra continua sabendo o caminho de
casa.
Talvez seja esse um dos mais belos destinos reservados a um escritor: pertencer ao mundo sem jamais deixar de pertencer à
terra que primeiro lhe ensinou a olhar.
Assim, entre o 6 de agosto,
que assinala sua partida, e o 10 de
agosto, que celebra sua chegada à vida, resta-nos uma certeza
que nenhum calendário consegue desfazer:
Jorge Amado permanece.
Permanece no Brasil.
Permanece na Bahia.
Permanece no Sul da Bahia.
E permanece, sobretudo, onde os grandes escritores aprendem a vencer
definitivamente o tempo: na memória de
seu povo e na eternidade da palavra.
Josanne Francisca Morais Bezerra
Presidente da Academia Grapiúna de Artes e Letras-AGRAL
Texto construído em momento de grande inspiração, na madrugada de 10 de agosto
de 2026.