quarta-feira, 12 de agosto de 2026

ITABUNA. AGRAL PROMOVE NOITE DEDICADA AO TEATRO, À EXPRESSÃO E AO AUTOCONHECIMENTO

 Emadilson de Jesus Santos – Academia Grapiúna de Artes e Letras (AGRAL) Academia Grapiúna de Artes e Letras - AGRAL

 


Brunna Lohana, Malena Dória e Ademilton Batista serão os convidados de mais uma edição do Ciclo de Palestras da Academia Grapiúna de Artes e Letras

Há encontros em que a arte se apresenta diante de nós. E há aqueles em que ela nos atravessa, provoca perguntas, desperta memórias e nos convida a olhar, com maior profundidade, para nós mesmos e para o outro.

É com esse espírito que a Academia Grapiúna de Artes e Letras - AGRAL realizará, no dia 9 de setembro de 2026, às 19 horas, mais uma edição de seu Ciclo de Palestras, reunindo três expressivas trajetórias das artes e da cultura: Brunna Lohana, Malena Dória e Ademilton Batista.

O encontro acontecerá no Salão de Eventos da Loja Maçônica 28 de Julho, em Itabuna, e terá como centro a palestra “Teatro: A linguagem da presença, da expressão e do autoconhecimento”, que será proferida pela atriz, teatróloga, poeta e arte-educadora Brunna Lohana.

Natural de Itabuna, Brunna construiu, desde a infância, uma relação profunda com diferentes linguagens artísticas. Atriz da Companhia de Artes Cênicas Teatro & Fantasia, professora de teatro infantojuvenil e arte-educadora da FICC, transita pelo teatro, pela poesia, pela escrita e pelas artes visuais. Em sua trajetória, deu vida a personagens de universos diversos, do teatro infantil à dramaturgia voltada ao público adulto, e integrou também a realização do filme “Adonias”, dirigido pelo cineasta Vitor Augusto Xavier, no qual interpretou Rosita, esposa de Adonias Filho, além de atuar na direção de arte, produção e preparação de elenco.

Mais do que abordar o teatro como linguagem artística, sua palestra propõe uma aproximação com aquilo que constitui a essência da experiência cênica: o corpo, a voz, a presença, a expressão e a possibilidade de, pela arte, conhecer um pouco mais de si e do humano.

No teatro, o corpo não é apenas instrumento de representação: é território de memória, emoção, identidade e comunicação. Antes mesmo que a palavra seja pronunciada, o gesto já anuncia sentidos; o olhar estabelece relações; a postura revela estados interiores; o silêncio comunica aquilo que, muitas vezes, a linguagem verbal não consegue alcançar. Estar em cena é, antes de tudo, estar presente - inteiro diante de si, do outro e do instante que se constrói.

A voz, por sua vez, ultrapassa o simples ato de dizer um texto. Ela carrega intenção, ritmo, emoção, história e singularidade. Entre a palavra pronunciada e o silêncio que a acompanha, o teatro cria um espaço no qual aquilo que sentimos pode ganhar forma e aquilo que permanece oculto pode, delicadamente, encontrar expressão.

É justamente nesse encontro entre corpo, voz, emoção, pensamento e presença que o teatro pode tornar-se também uma experiência de autoconhecimento. Ao interpretar, o sujeito não apenas experimenta ser outro; é também provocado a reconhecer dimensões de si mesmo. Ao entrar em contato com diferentes personagens, conflitos, afetos, fragilidades, desejos e maneiras de existir, amplia sua percepção sobre a complexidade da condição humana.

Há, portanto, um movimento particularmente profundo na experiência teatral: para alcançar o outro, muitas vezes é necessário atravessar a si mesmo. O intérprete empresta seu corpo, sua voz e sua sensibilidade a uma personagem, mas, nesse processo, também encontra perguntas que lhe pertencem: Quem sou? Como me expresso? O que meu corpo comunica antes de minhas palavras? Como reconheço minhas emoções? De que maneira percebo e acolho aquele que é diferente de mim?

É nessa perspectiva que o teatro ultrapassa os limites da representação e se aproxima da formação humana. Ele exercita a escuta, a atenção, a imaginação, a sensibilidade e a capacidade de perceber diferentes pontos de vista. Ao permitir que alguém, ainda que simbolicamente, experimente outras histórias e outras formas de existir, a arte cênica pode ampliar a compreensão de si e, simultaneamente, aprofundar a percepção do outro.

E talvez esteja aí uma de suas mais belas potências: o teatro nos convida a sair de nós mesmos para que possamos, paradoxalmente, retornar a nós com um olhar diferente.

Assim, falar de teatro como linguagem da presença, da expressão e do autoconhecimento é falar de uma arte que não acontece apenas diante dos olhos. Acontece também no interior de quem representa e de quem assiste. Porque, quando a experiência cênica verdadeiramente nos alcança, não vemos somente personagens e histórias: encontramos, por meio delas, fragmentos daquilo que somos, daquilo que sentimos e, algumas vezes, daquilo que ainda estamos aprendendo a compreender em nós mesmos.

Ao longo da palestra, a palavra encontrará o gesto e a reflexão ganhará corpo por meio de uma performance cênica de Brunna Lohana e Malena Dória.

Não se tratará apenas de ilustrar aquilo que estiver sendo apresentado conceitualmente. A intervenção cênica permitirá que algumas das questões suscitadas pela palestra sejam também experimentadas pela linguagem do corpo, da voz, do movimento, da pausa, do olhar e da presença. Se a palavra pode explicar determinados aspectos do teatro, a cena possui outra forma de dizer: comunica pelo sensível, pelo instante e por aquilo que acontece no encontro vivo entre intérprete e público.

Nesse diálogo entre pensamento e representação, Brunna e Malena aproximarão duas trajetórias e diferentes tempos de experiência artística, evidenciando também uma das mais belas características do teatro: sua capacidade de promover encontros entre gerações, repertórios, sensibilidades e maneiras distintas de compreender e vivenciar a arte.

Com mais de quatro décadas dedicadas às artes cênicas, Malena Dória traz para esse encontro uma trajetória construída entre interpretação, direção, produção cultural e arte-educação. Graduada em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC, participou de dezenas de espetáculos e esteve à frente de importantes montagens, entre elas A Paixão de Cristo e Marinete de Tieta. Sua experiência artística alcançou também outros países: com o espetáculo Sou Eu, levou o teatro brasileiro à Suécia, realizando apresentações em espaços da Universidade de Uppsala.

Sua presença representa, assim, não apenas a experiência de quem fez do teatro uma escolha profissional, mas a maturidade de quem compreendeu a cena também como espaço de educação, encontro, identidade cultural e formação humana. São mais de quarenta anos em que interpretar, dirigir, produzir e ensinar se entrelaçam numa mesma compreensão da arte: a de que o conhecimento adquirido no teatro ganha ainda maior sentido quando pode ser compartilhado e transmitido às novas gerações.

A noite reservará, ainda, um momento especial com o escritor, poeta, ator e comunicador Ademilton Batista, que acrescentará ao encontro um sensível toque de reflexão.

Sua participação estabelecerá uma ponte entre a experiência teatral e a palavra literária. Em uma noite dedicada à presença, à expressão e ao autoconhecimento, sua intervenção convidará o público a acolher aquilo que a arte pode deixar quando encontra a interioridade humana. Será um momento em que teatro, literatura, poesia e reflexão poderão aproximar-se, lembrando que as diferentes linguagens artísticas, embora possuam formas próprias de expressão, frequentemente se encontram no mesmo território: a tentativa humana de compreender a existência e atribuir sentido à experiência de viver.

Há algo especialmente significativo nessa participação. Ademilton Batista transita justamente por linguagens que fazem da palavra e da presença instrumentos de comunicação: escreve, declama, interpreta, comunica. Sua trajetória permite perceber que a palavra pode existir impressa na página, pronunciada em um recital, transformada em personagem no cinema ou oferecida diretamente a alguém como gesto de sensibilidade e acolhimento.

Natural de Salvador e radicado em Itabuna desde 1989, Ademilton construiu uma trajetória que reúne literatura, poesia, comunicação, teatro e cinema. Autor de Vencendo o Tempo, possui trabalhos reconhecidos em diferentes países e foi três vezes nomeado Embaixador da Palavra pela Fundación César Egido Serrano, de Madrid. Idealizador do projeto “Poesia que Cura”, leva a palavra poética a hospitais, creches, orfanatos e abrigos, aproximando literatura, sensibilidade e cuidado humano.

No cinema, interpretou o escritor Adonias Filho no filme “Adonias”, dirigido por Vitor Augusto Xavier, além de integrar outras produções audiovisuais. É membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA e da Academia Luso-Brasileira de Letras do Rio Grande do Sul - ALBL.

Ao reunir essas três trajetórias, a AGRAL propõe uma noite em que experiência e juventude, palavra e silêncio, corpo e pensamento, teatro e literatura possam dialogar.

Há, nesse encontro, também uma simbologia particularmente bonita. De um lado, a energia criadora de Brunna Lohana, uma jovem artista que transita entre diferentes linguagens e encontra no teatro e na poesia formas de dizer o mundo. De outro, a experiência de Malena Dória, construída ao longo de mais de quatro décadas de dedicação às artes cênicas e à formação de novos artistas. E, completando esse diálogo, a palavra de Ademilton Batista, atravessada pela literatura, pela poesia, pela comunicação e pela interpretação.

Não se trata, portanto, apenas da reunião de três convidados em uma mesma programação. Trata-se do encontro entre percursos, gerações e linguagens artísticas que, por caminhos distintos, convergem para uma mesma compreensão: a arte como possibilidade de expressão, conhecimento, memória, comunicação e humanização.

Nesse sentido, a noite proposta pela AGRAL pretende ultrapassar os limites de uma palestra convencional. O conhecimento estará na palavra pronunciada, mas também no gesto; estará na experiência acumulada, mas também na descoberta; estará na interpretação, no silêncio, na poesia, no corpo e na relação estabelecida entre aqueles que oferecem sua arte e aqueles que se dispõem a recebê-la.

Porque o teatro talvez comece quando alguém entra em cena, mas não termina quando as luzes se apagam.

Ele continua na memória de quem assistiu. Permanece na pergunta que acompanha alguém de volta para casa, na emoção para a qual talvez ainda não exista nome, na lembrança despertada inesperadamente, na identificação com uma personagem ou simplesmente naquele breve instante em que alguém percebeu, diante da experiência representada pelo outro, alguma coisa sobre a própria existência.

Essa talvez seja uma das forças mais extraordinárias da arte teatral: o que acontece diante de nossos olhos pertence à cena; aquilo que acontece dentro de nós já pertence à nossa própria história.

Por isso, o teatro é também encontro. Entre ator e espectador. Entre palavra e silêncio. Entre realidade e imaginação. Entre aquilo que somos e aquilo que, por alguns instantes, podemos experimentar ser. Quando a cena verdadeiramente nos alcança, deixamos de ser apenas espectadores de uma história alheia e passamos, de alguma maneira, a participar da experiência humana que ela revela.

É também nessa dimensão que o Ciclo de Palestras da AGRAL reafirma seu compromisso com a circulação do conhecimento, com a valorização dos artistas e agentes culturais e com a criação de espaços nos quais as artes, a literatura, a educação e a reflexão possam encontrar-se.

Ao promover encontros dessa natureza, a Academia reafirma igualmente a compreensão de que uma instituição cultural não é apenas guardiã da memória: é também espaço vivo de criação, diálogo, formação e circulação de ideias. Preservar o que foi construído é fundamental; igualmente necessário é abrir caminhos para aquilo que continua sendo criado, pensado, escrito, interpretado e compartilhado em nosso tempo.

No dia 9 de setembro, portanto, a AGRAL convida o público não apenas a assistir a uma palestra, mas a participar de uma experiência de encontro com o teatro e com algumas das questões que ele nos devolve desde sempre: quem somos quando representamos? O que revelamos quando nos expressamos? O que descobrimos sobre nós mesmos quando, por alguns instantes, nos permitimos olhar o mundo pelos olhos do outro?

Talvez não existam respostas definitivas.

E talvez resida justamente aí uma das maiores belezas da arte: ela nem sempre nos entrega respostas; muitas vezes, oferece-nos perguntas melhores.

 

Serviço

Evento: Ciclo de Palestras da Academia Grapiúna de Artes e Letras-AGRAL
Palestra: “Teatro: A linguagem da presença, da expressão e do autoconhecimento”
Palestrante: Brunna Lohana
Performance cênica: Brunna Lohana e Malena Dória
Participação especial: Ademilton Batista
Data: 9 de setembro de 2026 (quarta-feira)
Horário: 19 horas
Local: Salão de Eventos da Loja Maçônica 28 de Julho
Endereço: Rua Professor Alício de Queiroz, nº 585, Centro - Itabuna, Bahia

 

 

Josanne Francisca Morais Bezerra

Presidente da Academia Grapiúna de Artes e Letras - AGRAL

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

COLÔMBIA. PRESIDENTE DECRETA SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA APÓS TERREMOTO COM MAIS DE CEM MORTOS

 image Autoridades afirmam que 61 edifícios foram destruídos / Joaquin Sarmiento - AFP

 

 Abelardo de la Espriella, que tomou posse  na última semana, coordena ações em Bogotá

 

 O recém-empossado presidente Abelardo de la Espriella declarou nesta segunda-feira (10) situação de emergência na Colômbia devido a um forte terremoto que deixou, até o momento, 111 mortos, 87 feridos e dezenas de edificações destruídas.

 Nas primeiras horas da manhã, as principais cidades do oeste do país viveram momentos de pânico, com milhares de pessoas evacuadas e dezenas de edificações que desabaram.

 O epicentro foi localizado em Quibdó, capital do departamento de Chocó. Nessa região empobrecida, as autoridades locais registram 12 mortos.

— Todos ficamos consternados, entregues a Deus (...) o que mais há são desaparecidos — disse à AFP o líder comunitário Luis Gregorio Moreno.

 O terremoto de magnitude 7,4 ocorreu às 7h34min no horário local (9h34min em Brasília), segundo os serviços geológicos da Colômbia e dos Estados Unidos.

— O governo nacional mantém todas as suas capacidades mobilizadas para proteger vidas, atender às comunidades afetadas e levar ajuda a cada território onde for necessária — disse o presidente em Bogotá, onde coordena o atendimento à emergência.

 O presidente, que tomou posse em 7 de agosto, apresentou um novo balanço que, além das vítimas, registra 61 edifícios destruídos, 18 unidades de saúde danificadas, 52 instituições de ensino afetadas, 18 vias danificadas e seis aeroportos com problemas em sua infraestrutura e sem operação para voos comerciais.

 Jornalistas da AFP observaram edifícios destruídos e pessoas feridas sendo evacuadas em diversas cidades do país.

 Em Pereira, capital de Risaralda, há "muitas pessoas feridas", outras "presas em meio aos escombros" e "a situação é crítica" na cidade, afirmou o prefeito Mauricio Salazar, em entrevista à Caracol Radio.

 Em Manizales, uma das torres de sua emblemática catedral se desprendeu.

— Há muitíssimos edifícios com danos estruturais ou em suas fachadas. Neste momento, o trânsito está colapsado, as pessoas não querem voltar para suas casas por medo de um novo tremor — disse à AFP Jaime Zuluaga, administrador de 50 anos, na cidade.

 O futebol também foi afetado. As partidas restantes da quarta rodada do campeonato da primeira divisão foram adiadas após o terremoto, informou a entidade que administra o futebol local. As competições sul-americanas também tiveram jogos cancelados no país.

 

Apoio internacional

 O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, expressou solidariedade ao novo governo, do qual é um aliado próximo. O governo de Donald Trump "está disposto a prestar apoio ao povo colombiano e ao governo" de De la Espriella, afirmou no X.

 A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também expressou sua disposição de ajudar. "Nesta noite, o coração da Europa está com o povo da Colômbia após o terrível terremoto na região de Chocó", escreveu nas redes sociais.

 Em suas redes sociais, o presidente Lula manifestou sua solidariedade ao povo colombiano e afirmou que "o Brasil permanece à disposição da Colômbia".

 A presidente do México, Claudia Sheinbaum, ofereceu "todo o apoio que a Colômbia precisar". Os presidentes do Chile e do Equador manifestaram solidariedade à Colômbia.

 Israel também ofereceu ajuda, em meio à retomada das relações diplomáticas após a chegada ao poder do ultradireitista De la Espriella.

 

 

Da Gazeta Zero Hora 

ITABUNA. JORGE AMADO: 114 ANOS DE UMA VOZ NASCIDA NO SUL DA BAHIA PARA O MUNDO - POR JOSANNE MORAIS - PRESIDENTE DA ACADEMIA GRAPIÚNA DE ARTES E LETRAS (AGRAL)

   

 

JORGE AMADO: 114 ANOS DE UMA VOZ NASCIDA NO SUL DA BAHIA PARA O MUNDO

Agosto guarda Jorge Amado entre duas datas e uma permanência. No dia 6, completaram-se vinte e cinco anos de sua partida; no dia 10, celebram-se cento e quatorze anos de seu nascimento. Entre uma data e outra, porém, a literatura parece desmentir o tempo: Jorge Amado permanece.

Permanece porque certos escritores, depois de atravessarem a vida, passam a habitar um território onde os calendários já não conseguem alcançá-los inteiramente. Seus anos podem ser contados; sua ausência pode ser datada; mas a presença que deixaram escapa à matemática do tempo.

Com Jorge Amado é assim.

Vinte e cinco anos depois de sua partida, ainda é possível encontrá-lo por estas terras. Não como quem procura uma lembrança distante, mas como quem reconhece uma presença disseminada pela paisagem e pela memória. Ele está no cheiro do cacau, na lembrança das antigas fazendas, nas estradas abertas entre matas e roças, nas cidades erguidas sob o esplendor e as contradições da civilização cacaueira. Está também no mar da Bahia, nas ladeiras de Salvador, nas feiras, nos mercados, nos terreiros, nas cozinhas e nas ruas onde a vida popular pulsa com uma intensidade que sua literatura soube transformar em palavra.

Jorge Amado nasceu em 10 de agosto de 1912, no Sul da Bahia. Antes de pertencer ao Brasil e antes de conquistar leitores em tantas partes do mundo, pertenceu profundamente a este chão. E pertencer, nesse caso, significa muito mais do que registrar um lugar de nascimento em sua biografia. Significa reconhecer uma geografia afetiva, histórica e humana que participou decisivamente da formação de seu olhar e que, mais tarde, seria transfigurada pela literatura.

Foi aqui que seus olhos começaram a aprender a humanidade.

O Sul da Bahia que se apresentou ao menino Jorge Amado não era apenas uma paisagem de extraordinária exuberância natural. Era uma sociedade em formação, atravessada pela expansão da lavoura cacaueira, pela riqueza que dela emergia, pelas disputas em torno da terra, pela força dos grandes proprietários e pelo trabalho de uma multidão de homens e mulheres sobre cujos braços se edificava a prosperidade regional.

Era um território de contrastes: abundância e privação, poder e vulnerabilidade, violência e esperança, mando e resistência conviviam muito próximos uns dos outros.

Foi nesse universo que Jorge Amado começou a perceber que uma terra não é feita somente de rios, matas, estradas, cidades e plantações. Uma terra é feita, sobretudo, das vidas que nela se entrelaçam.

Essa compreensão ajuda a explicar a extraordinária força humana que mais tarde atravessaria sua obra. O cacau, em Jorge Amado, nunca seria apenas fruto; a fazenda nunca seria somente propriedade; a cidade nunca seria mero cenário. Por trás de cada elemento da paisagem existiriam relações de poder, trabalho, desejo, sofrimento, ambição, solidariedade e esperança.

A geografia se tornaria humana porque o escritor aprendera, desde cedo, a enxergar as pessoas que existiam dentro dela.

Nesse sentido, o pensamento do geógrafo brasileiro Milton Santos oferece uma chave particularmente fecunda para compreendermos essa relação entre Jorge Amado e o território que o formou. Ao conceber o espaço como realidade inseparável da sociedade e da história, Milton Santos nos ajuda a perceber que o território não se reduz à paisagem física: ele é também experiência humana acumulada, espaço transformado pelo trabalho, pelas relações sociais, pelos conflitos, pelas permanências e pelas mudanças.

É precisamente esse território humano que Jorge Amado levaria para a literatura.

Quando escreveu sobre o Sul da Bahia, não transportou simplesmente uma paisagem para dentro do romance. Transportou uma experiência histórica.

Em Cacau (1933), aproximou-se do universo dos trabalhadores das fazendas cacaueiras, revelando as condições de vida e as desigualdades que conviviam com a riqueza produzida pelos chamados frutos de ouro. Em Terras do Sem-Fim (1943) e São Jorge dos Ilhéus (1944), a região cacaueira aparece atravessada pelas forças que marcaram sua formação histórica: o trabalho, a riqueza, as disputas pela terra, as relações de poder, os sonhos de ascensão, as violências e as resistências.

O Sul da Bahia deixou, então, de ser apenas um ponto no mapa para adquirir dimensão literária.

Jorge Amado não apenas nasceu no Sul da Bahia. O Sul da Bahia também nasceu literariamente dentro de Jorge Amado.

Nasceu como memória, conflito, paisagem, personagem e linguagem. E, quando o escritor começou a oferecer seus livros ao mundo, levou consigo esse território que primeiro lhe ensinara a observar os homens.

Mas existe ainda outra dimensão fundamental: Jorge Amado aprendeu muito cedo a olhar para aqueles que a História oficial nem sempre enxergava.

E esse olhar atravessaria profundamente sua obra, fazendo da literatura um espaço de visibilidade para personagens e grupos humanos que, durante muito tempo, permaneceram à margem das narrativas dominantes.

Em Suor (1934), voltou-se para os moradores pobres de um cortiço de Salvador, reunindo naquele espaço vidas marcadas pela precariedade e pela luta cotidiana pela sobrevivência. Em Jubiabá (1935), colocou no centro da narrativa Antônio Balduíno, personagem negro cuja trajetória permite ao escritor percorrer questões relacionadas à pobreza, ao trabalho, à identidade, à cultura afro-baiana e à exclusão social.

Em Capitães da Areia (1937), foram os meninos abandonados que ganharam rosto, nome, história e humanidade. Em vez de reduzi-los à condição de problema social ou de delinquentes, Jorge Amado procurou revelar as crianças existentes por trás do estigma: seus medos, afetos, lealdades, sonhos, violências sofridas e desejos de pertencimento. Ao fazê-lo, deslocou o olhar do julgamento para a compreensão humana.

Mais tarde, em Gabriela, Cravo e Canela (1958), as transformações dos costumes e as tensões entre tradição e modernização ganhariam extraordinária força literária. Gabriela não é apenas personagem de uma história de amor: sua liberdade confronta convenções e expectativas sociais impostas à mulher.

Em Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966) e Tieta do Agreste (1977), Jorge Amado voltaria a construir personagens femininas de enorme presença, por meio das quais também interrogaria convenções, moralidades e formas de controle social.

A cultura negra e as tradições afro-baianas alcançariam especial densidade em Tenda dos Milagres (1969), na figura de Pedro Archanjo e no universo cultural que o cerca. Ali emergem questões relacionadas ao racismo, ao preconceito, à mestiçagem, à intolerância e à desvalorização histórica dos saberes populares e das matrizes africanas na formação da sociedade brasileira.

Assim, trabalhadores, crianças abandonadas, negros, pobres, mulheres, habitantes dos cortiços, homens e mulheres das ruas, dos mercados, das roças e dos terreiros deixaram de constituir apenas a margem da paisagem social para ocupar o centro da criação literária.

É importante compreender a grandeza desse gesto.

Jorge Amado não lhes concedeu humanidade- reconheceu literariamente a humanidade que sempre lhes pertenceu. Deu-lhes presença narrativa, complexidade, desejos, contradições, afetos e história.

Talvez esteja justamente aí uma das marcas mais profundas de sua obra: onde a História oficial muitas vezes enxergou a multidão, Jorge Amado procurou enxergar pessoas.

O menino do Sul da Bahia aprendera que, por trás dos grandes acontecimentos, existem vidas anônimas; que, por trás da riqueza, existe trabalho; que, por trás das transformações de uma cidade, existem conflitos; e que, por trás da História escrita com letras maiúsculas, existem milhares de pequenas histórias sem as quais nenhuma sociedade pode verdadeiramente ser compreendida.

Seu universo, entretanto, continuaria a se alargar.

Vieram o mar e as ladeiras. Vieram os saveiros, as feiras, os mercados e os terreiros. Vieram as festas, os sabores, os cheiros e os mistérios da Bahia. Vieram Gabriela, Dona Flor, Tieta, Pedro Archanjo, Quincas Berro d’Água, os meninos de Capitães da Areia e uma multidão de personagens que parecem ter adquirido o extraordinário privilégio de sobreviver ao próprio autor.

Jorge Amado sabia criar gente.

Não apenas personagens.

Gente.

Homens e mulheres contraditórios, imperfeitos, apaixonados, sofridos, irreverentes, generosos, transgressores. Seres atravessados pelo desejo, pela fome, pelo preconceito, pela fé, pelo amor, pela esperança e pela necessidade humana de encontrar um lugar no mundo.

Talvez por isso continuemos a reconhecê-los.

A Bahia que emerge de seus livros não é silenciosa nem imóvel. Não é apenas paisagem oferecida à contemplação.

É uma Bahia que fala.

Fala através de seus homens e de suas mulheres. Fala através da fé e da festa, do sofrimento e da resistência, da sensualidade e da ternura, da injustiça e da esperança. Uma Bahia mestiça, plural, contraditória e profundamente humana.

Essa Bahia atravessou oceanos.

Os livros de Jorge Amado chegaram a numerosos países e idiomas, encontrando leitores pertencentes a culturas muito diferentes daquela em que suas histórias nasceram. Personagens saídos das terras do cacau e das ruas da Bahia passaram a falar outras línguas sem perder inteiramente o sotaque de sua origem.

Existe nisso uma bela lição sobre a literatura.

Para alcançar o universal, Jorge Amado não precisou deixar de ser baiano.

Precisou ser profundamente baiano.

Quanto mais mergulhou em sua terra, mais encontrou o ser humano. Quanto mais falou de sua gente, mais falou da humanidade. Quanto mais particular era a paisagem, mais universais se tornavam as paixões que nela habitavam.

O escritor que nasceu no Sul da Bahia chegou ao mundo sem abandonar o caminho de volta.

E nós, que vivemos nesta região, experimentamos diante de sua obra uma emoção particular. Quando lemos determinadas páginas de Jorge Amado, não visitamos apenas um território recriado pela literatura. Reconhecemos paisagens, memórias, modos de viver e fragmentos de uma história que também nos constitui.

Por isso, celebrar seus 114 anos de nascimento, aqui, possui uma dimensão que ultrapassa a homenagem literária.

É também um exercício de pertencimento.

Pertencer a uma terra não significa apenas ter nela nascido ou habitá-la. O pertencimento se constrói pela memória, pelas experiências compartilhadas, pelos símbolos que uma coletividade reconhece como seus e pelas narrativas por meio das quais um povo aprende a compreender a própria história.

É nesse ponto que literatura, memória e pertencimento se encontram.

Um povo não pertence verdadeiramente a um lugar apenas porque ocupa determinado espaço geográfico. Pertence também porque reconhece as histórias que ali foram vividas, preserva os nomes daqueles que ajudaram a interpretá-las e transmite às novas gerações os símbolos por meio dos quais essa experiência coletiva adquire sentido.

Jorge Amado tornou-se um desses símbolos.

Ao transformar o Sul da Bahia em matéria literária, ajudou também a transformar nossa experiência histórica em patrimônio cultural. Deu permanência, pela palavra, a um mundo que o tempo inevitavelmente modificaria.

Celebrá-lo, portanto, é mais do que recordar um grande escritor.

É reconhecer, através dele, uma parte de nós mesmos.

Para a Academia Grapiúna de Artes e Letras - AGRAL, essa memória possui significado ainda mais especial. Jorge Amado é Patrono da Cadeira nº 1, ocupada pelo escritor e jurista Dr. Vercil Rodrigues.

Existe uma simbologia particularmente expressiva nesse lugar que lhe foi reservado.

A primeira cadeira de uma Academia nascida no coração da região grapiúna guarda o nome de um escritor que partiu justamente deste chão para alcançar algumas das mais distantes geografias da literatura.

Uma cadeira acadêmica não guarda somente um nome.

Guarda uma memória, uma herança e uma responsabilidade.

Ao inscrever Jorge Amado entre seus patronos, a AGRAL reconhece uma linhagem cultural que pertence à própria identidade do Sul da Bahia e reafirma o compromisso de preservar, estudar e transmitir às novas gerações a memória daqueles que fizeram desta região território de criação, pensamento e literatura.

Jorge Amado faleceu em 6 de agosto de 2001.

A frase é historicamente verdadeira, mas literariamente parece insuficiente.

Porque morrer, para um escritor, talvez não signifique desaparecer.

Enquanto houver alguém abrindo Gabriela, Cravo e Canela e reencontrando uma sociedade atravessada por mudanças; enquanto os meninos de Capitães da Areia continuarem correndo pelas páginas; enquanto Terras do Sem-Fim devolver ao leitor os dramas da conquista das terras do cacau; enquanto Pedro Archanjo continuar enfrentando intolerâncias; enquanto Dona Flor, Tieta e Quincas continuarem provocando leitores, Jorge Amado permanecerá contrariando a ausência.

Os grandes escritores possuem essa forma particular de eternidade.

Deixam de estar entre nós, mas continuam dizendo.

Continuam perguntando.

Continuam inquietando.

Continuam contando.

Passados vinte e cinco anos de sua morte e chegados os cento e quatorze anos de seu nascimento, talvez devamos olhar menos para a distância que nos separa de Jorge Amado e mais para tudo aquilo que ainda nos aproxima dele.

A terra permanece.

As palavras permanecem.

As personagens permanecem.

E permanece, sobretudo, a extraordinária capacidade de sua literatura de devolver presença e dignidade àqueles que a História tantas vezes relegou às margens.

Neste 10 de agosto de 2026, celebrar Jorge Amado é celebrar mais do que a memória de um escritor. É reconhecer a força de uma obra que transformou o Sul da Bahia em território literário do mundo e fez de homens e mulheres de nossa terra personagens de uma narrativa universal.

Cento e quatorze anos depois daquele agosto de 1912, o menino grapiúna continua viajando.

Seus livros atravessaram mares.

Suas personagens aprenderam outras línguas.

Sua Bahia encontrou morada na imaginação de sucessivas gerações de leitores.

E, depois de percorrer o mundo, sua palavra continua sabendo o caminho de casa.

Talvez seja esse um dos mais belos destinos reservados a um escritor: pertencer ao mundo sem jamais deixar de pertencer à terra que primeiro lhe ensinou a olhar.

Assim, entre o 6 de agosto, que assinala sua partida, e o 10 de agosto, que celebra sua chegada à vida, resta-nos uma certeza que nenhum calendário consegue desfazer:

Jorge Amado permanece.

Permanece no Brasil.
Permanece na Bahia.
Permanece no Sul da Bahia.

E permanece, sobretudo, onde os grandes escritores aprendem a vencer definitivamente o tempo: na memória de seu povo e na eternidade da palavra.

Josanne Francisca Morais Bezerra

Presidente da Academia Grapiúna de Artes e Letras-AGRAL
Texto construído em momento de grande inspiração, na madrugada de 10 de agosto de 2026.

SALVADOR DEBATE NA BAND. ACM NETO E MANSUR CRITICAM PROBLEMAS DO ESTADO, E JERÔNIMO FOGE DE CONFRONTO DIRETO

 Ronaldo Mansur (PSOL), ACM Neto (União Brasil) e Jerônimo Rodrigues (PT)  Ronaldo Mansur (PSOL), ACM Neto (União Brasil) e Jerônimo Rodrigues (PT) Crédito: Arisson Marinho/CORREIO DA BAHIA 

 

Debate entre candidatos a governador da Bahia promovido pela TV Band aconteceu na noite deste domingo (09) 

 

  O debate realizado pela TV Band, neste domingo (9), com os três candidatos ao governo da Bahia foi marcado por duras críticas dos oposicionistas à situação da segurança pública e da saúde no estado, principalmente por parte de ACM Neto (União Brasil). O encontro também teve como característica a tentativa do governador e candidato à reeleição, Jerônimo Rodrigues (PT), de evitar o confronto direto com o ex-prefeito de Salvador em alguns momentos. 

  Apesar da expectativa de que Jerônimo confrontasse seu principal adversário, ACM Neto, o petista decidiu fugir do embate direto e optou por fazer a primeira pergunta a Ronaldo Mansur (PSOL). O governador ressaltou ações de sua gestão na área da educação e questionou o adversário sobre suas propostas para o setor.

 Mansur afirmou que o estado não precisa apenas ampliar o número de escolas públicas, mas também valorizar os professores. Ele criticou as contratações pelo Regime Especial de Direito Administrativo (Reda) realizadas pelo governo estadual e apontou a insegurança enfrentada pelos profissionais. “Passam todo o período do ano sem saber se o contrato (do Reda) será renovado ou não”, atacou ele.

 O candidato do PSOL também se posicionou contra a aprovação automática - medida adotada no início do governo Jerônimo que permitiu que estudantes avançassem de série mesmo após reprovação em disciplinas e registro de faltas em aulas. “Nós somos totalmente contrários à aprovação automática”, ressaltou o socialista.

 Questionado por Mansur sobre seu posicionamento na eleição presidencial, ACM Neto afirmou que apoia Ronaldo Caiado (PSD) na disputa pelo Palácio do Planalto. O ex-prefeito lembrou que, durante a campanha eleitoral de 2022, Jerônimo declarou que resolveria os problemas da Bahia a partir da parceria com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas afirmou que as principais pendências do estado permanecem. 

 Neto criticou ainda o governador por “transferir responsabilidade”. Ele recordou que, na semana passada, Jerônimo atribuiu ao presidente da República a situação precária das rodovias federais que cortam a Bahia. O petista rebateu e afirmou que não colocou a culpa em Lula pela situação das estradas. Irritado, pediu direito de resposta, mas a solicitação foi negada pelo corpo jurídico da Band.

 O ex-prefeito de Salvador aproveitou o momento para criticar também o desempenho da Bahia no Ideb, divulgado na semana anterior. Os dados apontaram resultados negativos do estado no Ensino Médio e nos anos finais do Ensino Fundamental.

 Na primeira oportunidade que teve de questionar Jerônimo diretamente, ACM Neto abordou dois dos principais problemas enfrentados pelo estado: a violência e a saúde. O ex-prefeito citou casos de pessoas que morreram enquanto aguardavam atendimento na fila da regulação e também vítimas da violência na Bahia.

 Jerônimo defendeu o legado de sua gestão e reagiu com críticas à administração municipal de Salvador. ACM Neto, então, rebateu o governador: “Eu fui testado e aprovado. Você foi testado e reprovado”, afirmou Neto, que comandou a prefeitura de Salvador por oito anos.

 Questionado pela jornalista Maria Lorena Alves sobre a situação da violência, Jerônimo voltou a afirmar que a questão é um “debate internacional” e ressaltou os investimentos realizados pelo governo estadual na área. Neto criticou a postura do governador: “Ele (Jerônimo) sempre faz isso. (Diz que) o problema é do prefeito, é de Lula, é internacional. Só não é dele. Mas, se Deus me der a oportunidade de ser governador, eu vou me envolver diretamente na solução da segurança pública no estado da Bahia”, declarou.