quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

ILHÉUS. CACAUILCULTORES PROTESTAM NO PORTO CONTRA DESÁGIOS E IMPORTAÇÕES DE CACAU AFRICANO

 Cacauicultores protestam no Porto de Ilhéus contra deságios e importações  de cacau africano - Mercado do Cacau

 

Cerca de dois mil produtores participaram do ato nesta quarta-feira (28), cobrando preço justo, valorização do fruto e mais rigor nas regras de importação

 

  Ilhéus (BA) – Cerca de dois mil cacauicultores realizaram, nesta quarta-feira (28), uma manifestação em frente ao Porto Internacional de Ilhéus para protestar contra os deságios praticados pela indústria moageira e o aumento das importações de cacau africano, que, segundo os produtores, têm derrubado os preços pagos ao fruto e colocado em risco a sustentabilidade da cadeia produtiva regional.

 O ato foi liderado pela Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC) e reuniu representantes de associações, cooperativas e lideranças do sul e baixo-sul da Bahia. Com cartazes e palavras de ordem pedindo “preço justo para o cacau e dignidade para quem produz”, os manifestantes também criticaram a Instrução Normativa nº 125/2021, do Ministério da Agricultura, que flexibilizou exigências fitossanitárias para a importação de amêndoas.

 Na avaliação dos cacauicultores, a retirada da obrigatoriedade do tratamento com brometo de metila em países exportadores que abastecem o Brasil, como a Costa do Marfim, aumenta o risco de entrada de pragas exóticas, a exemplo da Phytophthora megakarya, responsável pela doença da vagem preta, considerada uma grave ameaça às lavouras nacionais.

 Presente no protesto, o ex-prefeito de Gandu, Leo de Neco, destacou ao Mercado do Cacau a importância de fortalecer a produção local. Segundo ele, valorizar o cacau baiano é garantir renda no campo, movimentar a economia das cidades e preservar uma cultura que sustenta milhares de famílias. “O produtor precisa ser respeitado. Quando o cacau é desvalorizado, toda a região sente. É uma luta que vai além da porteira da fazenda”, afirmou.

 O presidente da Câmara Setorial do Cacau da Bahia, Fausto Pinheiro, alertou para o cenário de desânimo no campo diante da forte queda nos preços. De acordo com ele, muitos produtores já enfrentam dificuldades para manter os tratos culturais e honrar compromissos financeiros, o que pode levar ao abandono das lavouras. “Estamos vivendo um momento crítico. Sem remuneração justa, não há como investir, produzir com qualidade ou manter o homem no campo”, reforçou.

 Já o secretário municipal de Agricultura e Pesca de Ilhéus, Milton Andrade, lembrou que a mobilização desta quarta-feira remete a um ato semelhante ocorrido há cerca de 13 anos, também motivado pela luta por melhores preços. Para ele, o movimento mostra que o problema persiste e exige soluções estruturais. Andrade também criticou a postura das multinacionais, que, segundo os produtores, vêm praticando valores abaixo da cotação da Bolsa de Nova York, referência internacional do mercado.

 Atualmente, a tonelada do cacau gira em torno de US$ 4.100 no mercado externo, o que, na avaliação do setor produtivo, deveria resultar em um preço mínimo de cerca de R$ 320 por arroba no Brasil. No entanto, no sul da Bahia, muitos agricultores relatam receber em média R$ 200, patamar considerado inviável, especialmente para a agricultura familiar, que representa a maioria dos produtores e tem papel fundamental na movimentação do comércio local, desde serviços e construção até consumo em geral.

 Segundo o produtor de Gandu, Moura Silva, a luta não é apenas dos cacauicultores. “É também dos prefeitos, comerciantes e prestadores de serviço. Quando o cacau vai mal, toda a economia regional sofre”, pontuou. As lideranças defendem maior isonomia nas regras de importação, revisão dos critérios de classificação das amêndoas estrangeiras e mais transparência na formação de preços.

 Os produtores também denunciam que a formação de estoques acima da necessidade do mercado interno, somada à entrada de grandes volumes de cacau africano, tem ampliado a oferta e pressionado ainda mais as cotações domésticas. Em pouco mais de um ano, os preços internos teriam recuado de cerca de R$ 1.000 para algo em torno de R$ 250 por arroba, um choque que ameaça investimentos, empregos e a própria permanência do produtor na atividade.

 Do lado das indústrias, o argumento é de retração da demanda por derivados de cacau e necessidade de garantir o abastecimento das fábricas por meio de contratos firmados com antecedência. Ainda assim, o impasse evidencia o aumento das tensões entre os elos da cadeia produtiva, em um cenário marcado por forte volatilidade internacional e desafios crescentes para equilibrar produção, estoques e consumo.

 Ao final do ato, as lideranças reforçaram que novas mobilizações podem ocorrer caso não haja avanços no diálogo com o governo federal e com a indústria, e defenderam políticas que priorizem o cacau brasileiro, assegurem sanidade vegetal e garantam remuneração justa a quem mantém viva uma das principais vocações econômicas do sul da Bahia.

 

 

Fonte: Mercado do Cacau

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