
Teoria e Ação: uma resenha, um banzo.
Sou testemunha viva de uma magistral educação. Fui aluno em um colégio de
verdadeira formação pedagógica: Colégio Divina Providência. Direção de professora
Lindaura Brandão e filhas. Entre os anos de 1980 e 1989 estudei com os melhores
professores; profissionais que exerciam a tradicional educação. Resquícios da
metodologia dos anos setenta, melhor formação e meio de instrução. Não essa porcaria
de vida egocêntrica, violenta, que tiraram a ordem, a disciplina e a organização de nosso
dia a dia. Fingem que se ensinam e fingem que se estudam.
Creio em afirmar que os anos oitenta foram os melhores anos da minha vida.
Nascido em 1975, pude observar, mesmo sendo criança, o que acontecia ao meu redor;
ávido por conhecimento e por saber o que estava transcorrendo com o mundo e com
nosso Brasil. Estudava, brincava, mas não era uma criança alienada, como a maioria.
Meus heróis eram o Homem-Aranha, o Super-Homem e tinha medo do Batman.
Brincava bastante com meus primos sendo Huck nas praias de Salvador, Ilhéus, Porto
Seguro, Jauá, Arempebe. Lugares marcantes nas férias.
Hoje sou um homem casado, tenho três filhas e ainda escuto as músicas com as quais fui crescendo, ouvindo, ainda escuto os anos 80. Meus ouvidos foram educados
para ouvir o que é bom.
Estou com quarenta e sete anos e observo o acontecimento rápido do
mundo. Tecnologias criando uma aproximação entre todos pelo mundo, um anel único
chamado INTERNET. Informação que é provida para o bem e também para o mal. Tudo
hoje é mais rápido, uma velocidade extrema e angustiante. Verdades e mentiras sendo
mistificadas a cada décimo de segundo, a cada milésimo.
Assim, como muitos, não me acostumo com esses avanços assustadores.
Mas temos que saber viver com essas modalidades.
Tanta informação e ainda assistimos evasivos a destruição das famílias.
Jovens cada vez mais se matando por diversos motivos, há uma imensa falta de autoestima. Parece que nada pode ser resolvido, que o sol jamais nascerá novamente
amanhã e assim por diante. Imagine se eu tivesse feito o mesmo, me matando,
quando via minha mãe sofrendo por conta de uma depressão imensa, começo de uma
leve esquizofrenia, sem emprego, sem terminar os estudos, sem ninguém para ajudar,
para dar uma força.
. Ninguém da família para dar um apoio: diálogo, afeto, carinho e uma ajuda
financeira. Eu, sozinho cuidando de minha mãe. Com o tempo tivemos um apoio de
desconhecidos. Pessoas que se sensibilizaram com a nossa situação. Tive momentos
horríveis com minha mãe. A doença dela estava passando para mim, pessoas com
problemas mentais vão gerando, sem querer, problemas para os que cuidam delas.
Eu sobrevivi. Não me droguei, não me enchi de bebidas nem me suicidei.
Obtive uma força imensa, misteriosa, mas imensa. Sofri junto com minha mãe, sofremos
juntos. Por muito menos “cabeças com titica de galinha” se matam, se drogam e fazem
coisas absurdas em si e nos outros. Falta de limites, falta de respeito, de amor próprio.
Está sendo construída a geração do ridículo, do mau gosto; da falta de
responsabilidade.
Dias melhores virão. Depois da tempestade sempre vem a tranquilidade.
Isso é real. Atravessei um rio perigoso e cheio, com ondas altas que balançavam o
pequeno e frágil barco. Foi com tranquilidade e perseverança que consegui passar para
o outro lado seguro. Deu certo. Mas parece que a geração de hoje, isto é, desses últimos
vinte anos, não acredita nem mais em si mesmo.
Não sou uma pessoa de fé. Mas devo dizer que sou uma pessoa que vive
o dia a dia com vontade de vencer os problemas. Não deixo de estudar, de me informar
com coisas úteis, de olhar, com olhar de poeta, que o sol sempre brilha no horizonte
para nós, com chuva e tempestade, a gente consegue desafiar os medos, as batalhas,
sem violência e temor. Com inteligência e prazer pelas coisas boas.
Não ficar olhando a vida dos outros, se tem ou não tem. Ter as suas coisas,
pelos seus méritos, pelo seu suor. Não esperar constituir a ação. Pois tudo nessa vida
é teoria e ação. Um depende do outro. Assim como cada um de nós depende um
do outro. Cristão ou não, preto, branco, amarelo, pardo ou indígena, rico ou pobre. Tanto
faz. O que faz sentido é acreditarmos que nós podemos vencer as adversidades da vida
com temperança e altivez.
Posso fazer download de tudo que escutei e vi nos meus anos 80. Para
suportar o tédio e o tempo sanguinário de hoje. Assistir no Youtube a vídeos, programas,
propagandas que fizeram parte de minha infância. Existem coisas mais deliciosas do
que isso? Rever imagens interessantes de uma época que, eu sei, jamais voltará, mas
que nas minhas lembranças de menino na cidade de Itabuna existem para que eu saiba que
valeu a pena, ter destruído os demônios que queriam a minha morte. Ou sei lá como
chamar.
É uma pena que os meus inimigos não estão mais vivos para ver o quanto eu venho lutando e vencendo os obstáculos.
Por Luciano Cordier Hirs
* Luciano Cordier Hirs é natural de Itabuna/Bahia. Poeta, Escritor e ex-Assistente Administrativo da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). É autor do E-Livro: Folhas em Versos.