Emiron Gouveia de Deus
Para Emiron
Há amigos que não vão embora
Hoje, meu amigo,
a palavra custa a chegar.
Há notícias que atravessam a alma
e deixam o coração
sem saber o que dizer.
Porque não estávamos preparados
para falar de você no passado.
Não estávamos preparados
para esta ausência,
para este silêncio inesperado,
para esta quarta-feira
que chegou trazendo uma despedida.
E como se despede de um amigo?
Talvez não se despeça.
Talvez se guarde.
Guarde-se o sorriso,
a voz,
os encontros,
as conversas,
os pequenos gestos
que, quando aconteciam,
pareciam tão comuns
e que agora descobrimos
serem preciosidades.
Guarde-se a lembrança
de quem esteve presente.
De quem acreditou.
De quem, tantas vezes,
fez o possível
com aquilo que tinha nas mãos.
Eu me lembrarei de você, Emiron.
E me lembrarei, especialmente,
daquele começo,
quando o Cinema na Comunidade
ainda era sonho,
ideia procurando caminho,
esperança querendo acontecer.
Você estava lá.
Na primeira reunião.
E talvez você nunca tenha imaginado
que aquela presença
um dia seria lembrada assim:
como uma dessas delicadezas
que a memória recolhe
para que a morte não tenha
a última palavra.
Você apoiou o projeto
dentro das suas possibilidades.
E isso diz tanto...
Porque amizade também é isso:
estar presente
quando alguma coisa ainda é apenas sonho.
Hoje, diante de sua partida,
eu gostaria de encontrar
uma palavra maior que “obrigada”.
Uma palavra que pudesse carregar
a amizade,
o respeito,
a admiração
e esta tristeza imensa
de saber que alguns encontros
não voltarão a acontecer
da maneira como aconteceram um dia.
Mas talvez a vida
tenha seus próprios modos
de conservar aqueles que amamos.
Algumas pessoas ficam
nas fotografias.
Outras ficam nas histórias.
Algumas ficam nas obras
que ajudaram a construir.
E existem aquelas
que ficam dentro de nós.
Você ficará.
Ficará na Universidade
que recebeu tantos anos
do seu trabalho.
Ficará na comunicação.
Ficará no audiovisual.
Ficará nas imagens
que ajudou a tornar possíveis,
nos profissionais que ajudou a formar,
nos projetos aos quais estendeu a mão,
na memória de quem caminhou ao seu lado.
E ficará, meu amigo,
na minha lembrança.
Não como alguém
que simplesmente passou,
mas como alguém
que esteve.
E estar, verdadeiramente,
na vida de alguém
é uma das formas mais bonitas
de permanecer.
Hoje não quero dizer adeus.
Adeus parece definitivo demais
para quem deixou memória.
Prefiro dizer:
Obrigada, Emiron.
Obrigada pela amizade.
Obrigada pela presença.
Obrigada pelo apoio.
Obrigada pelos caminhos
em que nossas histórias se encontraram.
Siga em paz, meu amigo.
E se houver, para além daqui,
algum lugar onde as imagens
continuem contando histórias,
que haja luz.
Muita luz.
Daquelas que não servem apenas
para iluminar uma cena,
mas para iluminar a eternidade.
E, quando a saudade chegar -
porque ela chegará -,
eu procurarei você
naquilo que a morte
jamais poderá levar:
na memória.
Porque há amigos
que se despedem da vida,
mas nunca
do coração.
Para Emiron Gouveia de Deus,
com minha saudade, minha gratidão e meu afeto.
Josanne Francisca Morais Bezerra
29 de julho de 2026
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