Dr. Antônio Carlos de Souza Hygino (juiz de Direito)
Academia de Letras de Ilhéus
Senhoras e senhores, permitam-me começar com versos que atravessaram mais de um século e permanecem inquietantemente atuais.
São palavras de Castro Alves, no poema O Livro e a América, integrante da obra Espumas Flutuantes:“
“Oh! Bendito o que semeia
Livros … livros à mão cheia …
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma,
É germe que faz a palma,
É chuva que faz o mar ...”Oh
Esses versos não são apenas belos. Eles são um manifesto. Um programa de civilização. Uma convocação moral.
Castro
Alves viveu no século XIX, em um Brasil ainda escravocrata, desigual,
marcado por abismos sociais profundos. Ficou conhecido como o “Poeta dos
Escravos” por obras como Os Escravos, publicadas postumamente, nas
quais denunciava com vigor a brutalidade da escravidão. Para ele, a
poesia não era mero ornamento estético; era instrumento de transformação
histórica.
No contexto em que escreveu “O Livro e a América”, o
Brasil era um país de analfabetos. O acesso ao livro era privilégio de
poucos. A educação era restrita, e o pensamento crítico, raro. Quando
ele proclama “Bendito o que semeia livros”, está afirmando algo
revolucionário: espalhar livros é espalhar liberdade. Distribuir leitura
é distribuir consciência. Incentivar o povo a pensar é plantar as
sementes da emancipação.
Observem a potência das imagens: o livro é
germe. É semente viva. Não é objeto inerte. Não é mercadoria. É força
orgânica, transformadora. Ao cair na alma, germina. Cresce. Produz
frutos. E, como a chuva que faz o mar, a leitura individual pode, somada
a milhares de outras, transformar o destino coletivo de uma nação.
Naquele
tempo, o inimigo era a ignorância imposta pela exclusão social e pela
escravidão. Hoje, vivemos um paradoxo distinto — mas igualmente
desafiador.
Nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca houve
tantos livros disponíveis, tantas bibliotecas digitais, tantos cursos
online, tantas ferramentas de aprendizado. E, no entanto, enfrentamos
uma crise silenciosa: a superficialidade do pensamento.
Vivemos na
era da velocidade. Textos são reduzidos a manchetes. Ideias são
condensadas em frases curtas. Reflexões são substituídas por reações
instantâneas. A leitura profunda, paciente, contemplativa, cede espaço
ao consumo fragmentado de conteúdos.
E, nesse cenário, surge um novo protagonista da história humana: a inteligência artificial.
Ferramentas
de IA são capazes de produzir textos, análises, imagens, diagnósticos,
soluções. Elas ampliam nossa capacidade produtiva, democratizam o acesso
ao conhecimento e aceleram processos antes inimagináveis. Seria fácil,
portanto, supor que estamos mais inteligentes do que nunca.
Mas há uma pergunta incômoda que precisamos enfrentar: estamos realmente pensando mais — ou apenas delegando o pensamento?
Castro
Alves nos alertaria: não basta multiplicar livros; é preciso “mandar o
povo pensar”. Não basta gerar respostas; é preciso formar consciências.
A
inteligência artificial é instrumento. É amplificador. Ela expande o
alcance da mente humana, mas não substitui a responsabilidade de pensar
criticamente. Uma ferramenta não possui consciência moral. Não possui
compromisso ético. Não possui experiência existencial. Quem a orienta
somos nós.
Se utilizarmos a tecnologia para evitar o esforço da
reflexão, estaremos empobrecendo nossa própria humanidade. Se a
utilizarmos como apoio para aprofundar a compreensão, comparar ideias,
questionar premissas e expandir horizontes, estaremos honrando o
espírito de Castro Alves.
O problema não é a tecnologia. O problema é a passividade.
Quando
o poeta fala do livro como “chuva que faz o mar”, ele nos ensina que a
transformação social é cumulativa. Pequenas leituras, pequenas
reflexões, pequenas inquietações, quando compartilhadas, constroem
oceanos de mudança. O mesmo vale hoje: cada leitura crítica, cada
conversa profunda, cada dúvida sincera contribui para fortalecer o
tecido intelectual da sociedade.
Uma sociedade que não lê é uma
sociedade vulnerável. Vulnerável à manipulação, à desinformação, ao
extremismo, à simplificação das complexidades humanas. Uma sociedade que
não pensa é facilmente conduzida. Uma sociedade que não questiona perde
a capacidade de se autogovernar com maturidade.
Castro Alves lutou
contra a escravidão física. Nós enfrentamos, talvez, formas mais sutis
de escravidão: a escravidão do imediatismo, da distração constante, da
dependência acrítica de algoritmos.
Se antes a exclusão do livro
mantinha o povo distante da liberdade, hoje o excesso de informação, sem
reflexão, pode nos afastar da sabedoria.
É preciso, portanto,
recuperar o sentido do livro — não apenas como objeto impresso, mas como
símbolo de profundidade. Ler é dialogar com mentes distantes no tempo e
no espaço. É submeter nossas certezas ao confronto com outras
perspectivas. É aprender a argumentar, a duvidar, a ponderar.
A inteligência artificial pode oferecer respostas. Mas só a consciência humana pode formular boas perguntas.
E
aqui reside o ponto central da mensagem de Castro Alves para o nosso
tempo: o progresso técnico não substitui o progresso moral e
intelectual. Podemos ter máquinas extraordinárias, mas, se não
cultivarmos espíritos críticos, corremos o risco de ampliar nossa
capacidade de agir sem ampliar nossa capacidade de discernir.
“Bendito
o que semeia livros…” — hoje poderíamos dizer: bendito o que semeia
pensamento. Bendito o que estimula a leitura atenta. Bendito o que
ensina a questionar. Bendito o que forma cidadãos capazes de usar a
tecnologia com responsabilidade e autonomia.
A educação, em qualquer
época, é o maior ato político. Não no sentido partidário, mas no sentido
civilizatório. Educar é capacitar alguém a compreender o mundo para
transformá-lo. É oferecer ferramentas intelectuais para que a liberdade
não seja apenas formal, mas concreta.
Se quisermos honrar o legado de
Castro Alves, precisamos promover mais do que acesso à informação. Precisamos promover profundidade. Precisamos incentivar o hábito da
leitura integral, da análise cuidadosa, do debate respeitoso.
Precisamos
ensinar as novas gerações a utilizar a inteligência artificial não como
muleta, mas como trampolim — não como substituto da reflexão, mas como
catalisador do pensamento.
O livro que cai na alma ainda é germe. Mas
ele precisa de solo fértil. Esse solo é a disposição interior de
aprender, de escutar, de rever convicções. Sem isso, nem a melhor
tecnologia produzirá uma sociedade mais justa.
Permitam-me concluir retomando a imagem da chuva que faz o mar.
Cada
leitura feita com atenção é uma gota. Cada pergunta sincera é uma gota.
Cada conversa profunda é uma gota. Isoladamente, parecem pequenas. Mas,
reunidas, formam oceanos de consciência.
Castro Alves acreditava no
poder da palavra para libertar. Hoje, cabe a nós acreditar no poder da
reflexão para orientar a tecnologia. Que não sejamos apenas consumidores
de respostas prontas. Que sejamos construtores de pensamento.
Porque,
no fim das contas, a verdadeira revolução — ontem como hoje — começa
quando alguém abre um livro, permite que ele caia na alma, e decide
pensar.
Muito Obrigado!
Antônio Carlos de Souza Hygino.
Cadeira nº 1 da Academia de Letras de Ilhéus – Bahia
Ilhéus, 14 de março de 2026
Do Jornal Maçônico: O Compasso
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